Por Leonardo Vieira - Advogado | Jornalista | OAB/PB 23141 | DRT 3295
Trump
voltou a colocar Cuba no centro da estratégia americana, e desta vez com um
instrumento raro em política externa: coerência. Onde antecessores hesitaram
entre gestos simbólicos e recuos, Trump tratou a pressão como política, não
como retórica de campanha. Marco Rubio, ao seu lado, conhece Havana por uma
história que começa em Miami, não em um manual de relações internacionais. E,
enquanto o regime tenta sobreviver entre apagões, escassez e repressão, uma
pergunta deixou de ser absurda: quanto tempo ainda resta ao comunismo cubano?
Havana
sempre soube representar decadência com elegância.
Os prédios
coloniais continuam de pé. Os carros antigos ainda atravessam o Malecón. O mar
continua azul diante de uma cidade que aprendeu, durante décadas, a transformar
a própria ruína em cenário.
Mas há uma
diferença entre preservar uma paisagem e preservar um regime.
Em 2026,
Cuba chegou a um ponto em que a velha narrativa revolucionária parece cada vez
mais distante da vida cotidiana de seus cidadãos. A economia está sob forte
pressão, a infraestrutura enfrenta sucessivas falhas e a escassez de
combustível e energia tornou-se parte da rotina. Ao mesmo tempo, o sistema
político continua essencialmente fechado: Cuba permanece um Estado de partido
único, sem pluralismo político efetivo e com severas restrições às liberdades
civis.
É nesse
cenário que Washington voltou a olhar para Havana, com uma clareza estratégica
que faltou a administrações anteriores.
E desta
vez, a questão não é apenas econômica.
É política.
A América voltou a olhar para Havana
Donald
Trump nunca escondeu sua disposição de usar pressão econômica para tentar
alterar o comportamento do regime cubano. Onde outros viram acomodação como
sinônimo de pragmatismo, Trump tratou a pressão como a única linguagem que
Havana historicamente entendeu, e insistiu nela mesmo quando o preço político,
dentro e fora dos Estados Unidos, era o desgaste imediato.
É uma
escolha deliberada, não um acidente de calendário eleitoral. Trump aposta que
regimes fechados não se abrem por gentileza, se abrem por necessidade, e que
criar necessidade é trabalho de quem governa a maior economia do mundo.
Marco
Rubio, ao lado dele, conhece Cuba de uma maneira que poucos políticos
americanos conhecem, e isso muda a qualidade da política, não apenas o seu tom.
Sua
história familiar passa pelo exílio cubano em Miami.
Para uma
geração de cubanos que deixou a ilha, Havana não é uma abstração geopolítica. É
uma cidade lembrada através de fotografias, sobrenomes, histórias de família e
casas que ficaram para trás.
Miami
transformou essa memória em comunidade.
E essa
comunidade jamais deixou de olhar para o outro lado do Estreito da Flórida.
Durante
décadas, os governos americanos alternaram entre isolamento, aproximação e
sanções, muitas vezes sem uma direção clara. O resultado foi paradoxal: o
regime sobreviveu à União Soviética, a Fidel Castro, a sucessivas crises
econômicas e a diferentes presidentes americanos.
Mas
sobreviver não é o mesmo que vencer. E pela primeira vez em muito tempo,
Washington parece disposta a tratar essa diferença como estratégia, não como
retórica.
O regime que sobreviveu ao próprio fundador
Fidel
Castro morreu em 2016.
A
revolução, entretanto, continuou.
Seu irmão,
Raúl, preservou a estrutura política. Depois vieram novas gerações da
burocracia estatal. O discurso mudou, alguns mecanismos econômicos foram
flexibilizados, mas o fundamento permaneceu praticamente intocado: um sistema
político sem competição partidária real e com forte controle sobre imprensa,
oposição e organização independente.
O paradoxo
cubano está justamente aí.
O governo
permitiu determinadas experiências econômicas enquanto continuou extremamente
resistente à abertura política.
Em 2026, o
próprio governo cubano começou a implementar reformas econômicas e novas regras
para ampliar investimentos estrangeiros e determinadas atividades privadas,
sinais de que a realidade econômica já exige concessões que a ideologia durante
muito tempo rejeitou, e sinais também de que a pressão sustentada por Trump
está produzindo efeito onde décadas de diplomacia morna não produziram.
O
capitalismo pode entrar pela porta dos fundos.
A
democracia, aparentemente, ainda precisa esperar do lado de fora.
O dia em que o povo deixou de ter medo
Em julho de
2021, algo mudou.
Milhares de
cubanos saíram às ruas em diferentes cidades.
Não eram
apenas opositores tradicionais.
Eram
cidadãos comuns.
Gente
cansada da falta de comida, dos apagões, da escassez, da deterioração econômica
e de um sistema político que parecia incapaz de oferecer uma saída.
A resposta
do governo foi repressiva.
Organizações
internacionais de direitos humanos continuam registrando centenas de presos
políticos e casos de detenções arbitrárias, julgamentos injustos e maus-tratos
relacionados à repressão da dissidência.
Foi talvez
o momento mais importante da Cuba pós-Fidel.
Porque,
naquele verão, a propaganda perdeu o monopólio da narrativa.
A imagem da
revolução deixou de ser construída exclusivamente pelo Estado.
E Havana
descobriu uma coisa que regimes autoritários sempre descobrem tarde demais:
o medo
funciona até o dia em que deixa de funcionar.
O embargo é real. Mas não explica tudo.
Há uma
discussão que precisa ser enfrentada sem slogans.
O embargo
americano existe.
E seus
efeitos sobre a economia cubana são reais.
Organizações
internacionais e especialistas apontam impactos humanitários e econômicos das
sanções, enquanto o governo cubano utiliza o embargo como uma das principais
explicações para a crise nacional.
Mas existe
outra realidade igualmente difícil de ignorar.
O embargo não criou o
sistema de partido único.
Não proibiu eleições
competitivas.
Não criou a censura.
Não determinou que
opositores fossem presos.
Não obrigou Havana a
impedir o pluralismo político.
É possível
criticar a política americana em relação a Cuba e, simultaneamente, reconhecer
a responsabilidade do governo cubano por suas próprias escolhas. É essa
distinção, e não a rendição diplomática, que Trump e Rubio tiveram a coragem de
sustentar publicamente, mesmo sob críticas de quem preferia o conforto da
ambiguidade.
Uma coisa
não anula a outra.
Essa
distinção é importante porque, durante décadas, o regime conseguiu transformar
qualquer discussão sobre liberdade em uma discussão sobre Washington.
Como se a
pergunta fundamental nunca fosse:
“Por que
os cubanos não podem escolher livremente seu próprio governo?”
Miami não esqueceu Havana
Há algo que
Washington nunca conseguiu apagar de Cuba:
a
memória do exílio.
Miami
tornou-se uma espécie de Havana paralela.
Uma cidade
onde a música cubana continuou tocando, onde famílias preservaram fotografias,
receitas, sotaques e sobrenomes, e onde a ideia de que Cuba poderia ser
diferente nunca desapareceu completamente.
O exílio
também criou uma ponte política, e Rubio é, ele mesmo, essa ponte em carne e
voz dentro do governo americano, o primeiro a ocupar um posto de tamanho peso
na política externa dos Estados Unidos carregando essa memória como credencial,
não como acessório.
Para muitos
cubano-americanos, a queda do regime não seria apenas uma mudança de governo.
Seria a
conclusão de uma história familiar interrompida.
É por isso
que qualquer transformação em Havana teria repercussões muito além da política
externa americana.
Ela
atravessaria o Estreito da Flórida.
Entraria
nas casas de Miami.
E talvez,
pela primeira vez em décadas, permitisse que duas comunidades separadas pela
história começassem a imaginar a mesma Cuba.
O colapso não começa com tanques
Grandes
regimes raramente anunciam o momento em que começam a desaparecer.
Eles
simplesmente deixam de funcionar.
Primeiro vem a falta de
energia.
Depois, a falta de
combustível.
Depois, a falta de
confiança.
O Estado
continua existindo, mas já não consegue entregar aquilo que promete.
A população
continua obedecendo, mas deixa de acreditar.
A elite
continua discursando, mas começa a procurar alternativas.
E então
acontece o imprevisível.
Um sistema
que parecia permanente começa a parecer provisório.
Cuba ainda
não chegou oficialmente a esse momento.
Mas é
justamente a combinação entre crise econômica, pressão externa bem calibrada e
descontentamento social e ausência de abertura política que torna a pergunta
inevitável.
E se
desta vez o regime não conseguir sobreviver à firmeza de Washington?
E se o muro cair?
A queda do
comunismo cubano não significaria automaticamente uma democracia.
Essa é a
parte que os discursos triunfalistas costumam ignorar.
Derrubar um
regime é muito mais fácil do que construir uma sociedade livre depois dele.
Cuba
precisaria de instituições independentes, eleições competitivas, imprensa
livre, Judiciário funcional, segurança jurídica, propriedade privada protegida
e uma economia capaz de absorver décadas de distorções.
Precisaria
também de algo ainda mais difícil:
tempo.
E aqui
Washington teria um papel decisivo, um papel que a administração Trump, com
Rubio à frente da diplomacia, parece compreender com mais clareza do que
qualquer uma de suas antecessoras.
Não para escolher o
próximo presidente de Cuba.
Não para transformar a
ilha em um protetorado americano.
E muito menos para
substituir uma autoridade estrangeira por outra.
O papel dos
Estados Unidos deveria ser ajudar os cubanos a recuperar aquilo que lhes foi
negado:
o
direito de escolher.
A própria
legislação americana estabelece como referência para uma futura Cuba
democrática eleições livres e justas, liberdades civis, pluralismo político e
reformas econômicas, e é exatamente essa referência que Trump e Rubio invocam
quando insistem em manter a pressão.
Essa
deveria ser a linha.
Não uma
Cuba americana.
Uma Cuba
livre.
O dia seguinte
Imagine
Havana depois da queda.
Não é
preciso imaginar bandeiras americanas sobre o Capitólio.
É mais
interessante imaginar uma bandeira cubana.
Imagine uma fila diante
de uma urna.
Imagine jornais
independentes disputando leitores.
Imagine partidos
políticos discutindo em público.
Imagine empresários
abrindo restaurantes, hotéis, oficinas e empresas de tecnologia sem precisar
pedir permissão ao Estado para existir.
Imagine cubanos que
emigraram podendo voltar sem serem tratados como inimigos.
Imagine uma geração
inteira descobrindo que discordar do governo não é crime.
Essa seria
a verdadeira derrota do comunismo cubano.
Não a
entrada de tropas estrangeiras.
Mas o
nascimento de uma sociedade na qual tropas já não sejam necessárias para manter
um governo no poder.
A última palavra pertence aos cubanos
Washington pode
pressionar.
Miami pode financiar.
Trump pode impor
sanções.
Rubio pode negociar.
O Congresso americano
pode estabelecer condições.
Mas nenhum
deles pode fazer aquilo que somente os cubanos podem fazer:
escolher
o próprio futuro.
É por isso
que a eventual queda do regime não deveria ser celebrada apenas como uma
conquista americana, ainda que a coragem de Trump e Rubio em sustentar a
pressão, quando era mais fácil ceder e mais popular parecer flexível, mereça
ser reconhecida como o que foi: uma escolha política de risco calculado que
outros evitaram fazer.
Deveria
ser celebrada, sobretudo, como uma conquista cubana.
Os Estados Unidos podem
abrir a porta.
Podem oferecer
proteção.
Podem ajudar na
reconstrução.
Podem defender eleições
livres.
Podem pressionar pela
libertação de presos políticos.
Mas, no
fim, quem precisa atravessar essa porta é o povo cubano.
Porque uma
revolução imposta de fora continuaria sendo uma revolução de outros.
A
liberdade só é verdadeira quando pertence a quem a conquista.
Havana, enfim
Durante
quase sete décadas, o governo cubano construiu sua legitimidade em torno da
resistência.
Resistir aos Estados
Unidos.
Resistir ao
capitalismo.
Resistir ao exílio.
Resistir à oposição.
Resistir à história.
Talvez
agora a história esteja cobrando a conta, e talvez seja preciso reconhecer, sem
meias palavras, que uma política externa sem ilusões, como a que Trump conduz e
Rubio ajuda a desenhar com a autoridade de quem carrega Cuba no sobrenome,
ajudou a acelerar essa cobrança de um jeito que décadas de cautela diplomática
não conseguiram.
Cuba ainda
não é uma democracia.
O regime
ainda não caiu.
E ninguém
pode afirmar honestamente que sua queda é inevitável.
Mas algo
mudou.
Pela
primeira vez em muito tempo, o futuro cubano parece menos preso ao passado.
E se um dia
Havana acordar sem o comunismo, não será apenas porque Washington conquistou
Cuba.
Será porque
os cubanos finalmente recuperaram o direito de decidir o que Cuba deve ser, com
uma América disposta, desta vez, a não olhar para o outro lado.
Esse seria
o verdadeiro fim da Guerra Fria no Caribe.
Não quando
uma bandeira estrangeira entrar em Havana.
Mas quando
ninguém mais precisar perguntar a Washington, ou a qualquer outra capital, quem
tem o direito de governar Cuba.
A resposta,
finalmente, será simples: os cubanos.

