Por Leonardo Morais Vieira da Silva
Advogado (OAB/PB nº 23.141) e jornalista (MTE/DRT-PB nº
3.295)
Há uma China que se vende em vídeo institucional: trens que cortam
paisagens a 350 km/h, avenidas de Xangai iluminadas como constelações
artificiais, jovens de tênis branco filmando skylines para aplicativos que o
Ocidente nem conhece o nome. É a China dos discursos de abertura em fóruns de
investimento, das megacidades, da indústria tecnológica e da infraestrutura que
impressiona o mundo.
Existe também uma segunda China — menos fotogênica, quase sempre
fora de quadro — que sustenta parte dessa primeira sobre os ombros e raramente
ocupa o centro da narrativa.
Essas duas Chinas não são apenas metáforas. Elas aparecem nos dados.
A cidade
que nem sempre pertence a quem a construiu
A transformação urbana chinesa está entre os
maiores movimentos populacionais da história contemporânea. Em 2025, segundo o
próprio Escritório Nacional de Estatísticas da China, o país contabilizava
301,15 milhões de trabalhadores migrantes, dos quais cerca de 180 milhões
trabalhavam fora de suas localidades de origem.
São trabalhadores presentes na construção
civil, na logística, na indústria, no comércio e nos serviços que mantêm em
funcionamento as grandes cidades chinesas.
O problema está na distância entre trabalhar
em uma cidade e pertencer plenamente a ela.
O sistema de registro domiciliar conhecido
como hukou historicamente vinculou o acesso a uma série de serviços públicos e
benefícios sociais ao local de registro de cada cidadão. Reformas vêm sendo
implementadas, e o governo chinês anunciou medidas para reduzir essas
diferenças, mas estudos do Banco Mundial apontam que trabalhadores migrantes
ainda enfrentam desigualdades de acesso a proteção social e serviços urbanos em
comparação com residentes formalmente registrados.
A contradição é difícil de ignorar: milhões
de pessoas podem trabalhar durante anos na construção da prosperidade de uma
metrópole sem desfrutar, nas mesmas condições, de todos os benefícios
oferecidos a quem possui registro urbano local.
É uma divisão menos visível do que um muro —
mas nem por isso menos concreta.
Uma
geração formada para um mercado mais estreito
A segunda fratura é geracional.
Em 2025, a China projetava 12,22 milhões de
novos graduados no ensino superior, um recorde, segundo dados oficiais
divulgados pelo governo chinês.
Esse contingente encontrou um mercado de
trabalho incapaz de absorver todos os jovens no ritmo e nas condições
imaginadas durante sua formação.
Em agosto de 2025, a taxa de desemprego
urbano entre pessoas de 16 a 24 anos, excluídos os estudantes, chegou a 18,9%.
Em novembro estava em 16,9% e encerrou dezembro em 16,5%. É importante
registrar a metodologia: a série atualmente divulgada exclui estudantes e não é
diretamente comparável à antiga estatística interrompida em 2023.
O problema não desapareceu em 2026. Em agosto
deste ano, a taxa voltou a 18,9%, o maior nível em doze meses.
Mais do que números, a situação produziu
vocabulário.
Nos últimos anos, expressões como tangping,
literalmente “deitar-se”, passaram a simbolizar a recusa de parte dos jovens em
participar de uma competição profissional e social considerada excessiva.
Depois ganhou espaço bailan, algo próximo de “deixar apodrecer”: uma postura
ainda mais resignada diante da sensação de que certos objetivos sociais se
tornaram inalcançáveis.
Não significa que uma geração inteira tenha
desistido. Generalizações desse tipo seriam tão enganosas quanto a propaganda
que este artigo questiona.
Mas o simples fato de essas expressões terem
alcançado tamanha circulação revela alguma coisa sobre o estado de espírito de
parte da juventude chinesa.
O
espetáculo e o alicerce
Nenhuma dessas contradições apaga o que a
China realizou.
Nas últimas décadas, o país passou por
industrialização acelerada, urbanização em escala extraordinária, expansão
tecnológica e crescimento de infraestrutura que modificaram a economia mundial.
Negar essas conquistas seria substituir uma propaganda por outra.
O problema começa quando desenvolvimento
econômico é apresentado como fotografia sem margem.
A China das linhas de trem de alta velocidade
existe.
A China das cidades futuristas existe.
A China da tecnologia, da indústria e da
ascensão de milhões de consumidores também existe.
Mas também existe a China dos mais de 300
milhões de trabalhadores migrantes, das diferenças ainda associadas ao sistema
hukou e dos milhões de jovens que entram todos os anos em um mercado de
trabalho cada vez mais competitivo.
As duas realidades não se anulam.
Elas coexistem.
E talvez seja justamente essa coexistência
que diga mais sobre a China contemporânea do que qualquer fotografia isolada.
Toda potência constrói uma vitrine. Isso não
é exclusividade chinesa. Estados Unidos, Europa, Rússia, Brasil — governos,
empresas e sociedades escolhem o que preferem mostrar ao mundo.
O trabalho do jornalismo começa quando a
câmera se afasta da vitrine.
Não para negar o que está exposto, mas para
perguntar quem ficou fora do enquadramento.
Quando vemos o horizonte perfeito de Pudong,
a pergunta não deveria ser apenas quanto custou construir aquilo ou quantos
metros têm seus arranha-céus.
Também vale perguntar quem os construiu.
Onde essas pessoas vivem.
Que direitos possuem.
E que expectativas seus filhos carregam.
Toda modernidade tem uma conta.
A pergunta que interessa ao jornalismo — e
não ao departamento de relações públicas de nenhum país — continua sendo a
mesma:
quem está
pagando essa conta, e há quanto tempo espera pelo troco?
Fontes dos
dados citados
• National Bureau of
Statistics of China — 2025 Migrant Workers
Monitoring Survey Report e Statistical Communiqué on the 2025 National Economic
and Social Development. https://www.stats.gov.cn/sj/zxfb/202604/t20260430_1963472.html
• Governo da República
Popular da China / Ministério da Educação — Projeção
de 12,22 milhões de graduados em 2025. https://english.www.gov.cn/policies/latestreleases/202504/08/content_WS67f5c99bc6d0868f4e8f186a.html
• Banco Mundial — Estudos sobre mobilidade social, trabalhadores migrantes, proteção
social e reformas do sistema hukou. https://documents1.worldbank.org/curated/en/099540207212222589/pdf/IDU0d81807d20c45a041160863409697a9fc59c4.pdf
• Reuters / National
Bureau of Statistics of China — Desemprego urbano
entre jovens de 16 a 24 anos, excluídos estudantes, em 2025 e 2026. https://www.reuters.com/world/chinas-youth-jobless-rate-climbs-189-august-2025-09-17/
• Reuters — Taxa de desemprego jovem em agosto de 2026. https://www.reuters.com/world/asia-pacific/chinese-youth-jobless-rate-hits-one-year-high-august-2026-09-17/
• South China Morning Post
— Registros sobre o uso social das expressões
tangping e bailan. https://www.scmp.com/print/news/people-culture/trending-china/article/3194180/lying-flat-no-more-new-evolution-disillusionment

