DRILL, BABY, DRILL Por que a energia voltou ao centro da estratégia americana



Por Leonardo Vieira — Advogado | Jornalista | OAB/PB 23.141 | DRT 3.295

Petróleo, gás natural e carvão de um lado; fontes renováveis, eletrificação e tecnologias de baixo carbono do outro. Essa divisão, frequente no debate energético, explica pouco sobre os desafios atuais. A expansão da inteligência artificial, a reorganização das cadeias industriais e a competição entre as grandes potências exigem uma discussão que inclua a segurança do abastecimento, as redes elétricas e o custo da energia.

Nos Estados Unidos, Donald Trump fez da energia uma prioridade de seu segundo mandato. A expressão “Drill, Baby, Drill”, associada à ampliação da exploração e da produção de petróleo e gás, tornou-se o símbolo dessa orientação. A agenda, porém, também alcança a geração nuclear, a infraestrutura elétrica e as cadeias de fornecimento.

A administração apresenta a abundância energética como um caminho para fortalecer a indústria, reduzir vulnerabilidades externas e preservar a liderança tecnológica diante da China. Produzir mais petróleo, entretanto, não resolve todas essas necessidades: a economia digital depende principalmente de eletricidade e de redes capazes de entregá-la.

A relação entre energia e poder nacional ajuda a entender essa estratégia. Seus resultados dependerão da combinação entre combustíveis, geração elétrica, infraestrutura e investimentos de longo prazo.

A energia como instrumento de poder

A relação entre energia e poder nacional não é uma novidade. A industrialização foi construída sobre a disponibilidade de carvão. O petróleo alterou a organização dos transportes, das forças armadas e do comércio internacional. No século XX, a segurança do abastecimento energético passou a influenciar alianças, conflitos e decisões diplomáticas.

Os Estados Unidos compreenderam essa relação cedo. Sua capacidade industrial foi favorecida pela disponibilidade de recursos naturais, por uma extensa infraestrutura energética e por um mercado interno de grandes proporções.

Nas últimas décadas, a expansão da produção de petróleo e gás em formações de baixa permeabilidade, viabilizada por avanços tecnológicos como a perfuração horizontal e o fraturamento hidráulico, modificou a posição americana no mercado internacional. O país ampliou sua produção, reduziu parte de suas vulnerabilidades e consolidou-se como um dos protagonistas globais do setor.

Essa transformação criou uma vantagem estratégica importante. Ao contrário de economias fortemente dependentes da importação de combustíveis, os Estados Unidos passaram a contar com uma base doméstica de produção capaz de sustentar parcela expressiva de suas necessidades.

Mas abundância de recursos não significa independência absoluta. O petróleo continua sendo negociado em um mercado internacional. Seus preços respondem a guerras, interrupções de transporte, decisões de produtores e mudanças na demanda global.

Esse é um limite da estratégia de abundância: mesmo com produção elevada, os Estados Unidos continuam expostos às oscilações internacionais de preços.

A aposta de Trump na abundância

Em 20 de janeiro de 2025, no início de seu segundo mandato, Trump declarou uma emergência nacional relacionada à energia. A medida foi acompanhada por iniciativas destinadas a facilitar projetos de exploração, produção, transporte e geração.

Em 14 de fevereiro de 2025, a Casa Branca instituiu o Conselho Nacional de Dominância Energética para coordenar ações voltadas à expansão da oferta e à posição americana no setor.

A lógica econômica apresentada pelo governo é relativamente direta: energia abundante e acessível pode favorecer a indústria, reduzir custos operacionais, estimular investimentos e melhorar a competitividade das empresas.

Uma fábrica depende de eletricidade para manter suas máquinas em funcionamento. A indústria química utiliza petróleo e gás como combustíveis e matérias-primas. O transporte de mercadorias exige uma estrutura energética extensa. A agricultura moderna depende de combustíveis, fertilizantes e equipamentos.

No Short-Term Energy Outlook divulgado em 6 de outubro de 2026, a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) projeta produção média de petróleo bruto de 13,9 milhões de barris por dia em 2026 e de 14,3 milhões em 2027, ante 13,7 milhões em 2025.

A projeção indica expansão, mas não permite atribuí-la, isoladamente, às medidas de Trump. A produção depende de decisões empresariais, investimentos, condições geológicas e expectativas de rentabilidade. Novas autorizações de exploração não se convertem imediatamente em barris disponíveis no mercado.

Além disso, o governo enfrenta um dilema econômico. Preços elevados estimulam parte dos investimentos na produção, mas encarecem combustíveis e pressionam consumidores. Preços muito baixos beneficiam motoristas e setores que utilizam energia, porém podem reduzir o interesse das empresas em desenvolver novos projetos.

A reindustrialização precisa de eletricidade

Uma parte decisiva do desafio industrial está nas redes elétricas. Novas fábricas, instalações de processamento de minerais, centros de pesquisa e complexos tecnológicos precisam de eletricidade confiável.

O problema não se resume à quantidade produzida. A eletricidade precisa chegar ao local certo, no momento necessário e a um custo compatível com a atividade econômica.

Uma região pode possuir recursos energéticos abundantes e, ainda assim, enfrentar dificuldades para receber novos investimentos industriais por falta de linhas de transmissão, subestações ou capacidade de conexão à rede.

Na mesma edição de outubro, a EIA projeta que o gás natural forneça cerca de 40% da geração elétrica americana em 2026 e a energia nuclear, 18%. Solar e eólica somam aproximadamente 19%. São participações na geração de eletricidade, não no consumo total de energia do país.

O gás natural pode oferecer geração flexível, desde que haja combustível e infraestrutura disponíveis. A energia nuclear permite geração contínua em grande escala, com baixas emissões diretas de carbono durante a operação. As fontes renováveis diversificam a oferta; no caso da solar e da eólica, a variabilidade exige coordenação com redes, armazenamento e outros recursos de equilíbrio do sistema.

Combinar essas capacidades exige planejamento técnico, capital e continuidade institucional. A preferência política por uma fonte não elimina as exigências operacionais do sistema.

A inteligência artificial mudou a dimensão do problema

Os centros de dados consomem eletricidade para operar servidores, sistemas de refrigeração e equipamentos de comunicação. A expansão da infraestrutura computacional tende a elevar essa demanda, embora ganhos de eficiência e mudanças no uso dos equipamentos possam alterar sua trajetória.

A corrida pela inteligência artificial envolve chips avançados, pesquisadores e capacidade de processamento. Também depende da disponibilidade de eletricidade nos locais em que as instalações serão construídas.

O United States Data Center Energy Usage Report: 2025 Update, publicado em junho de 2026 pelo Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, estima que os centros de dados possam representar 11,8% do consumo de eletricidade dos Estados Unidos em 2030, no cenário de referência. A faixa projetada vai de 9,5% a 15,3%. A estimativa abrange o conjunto dos centros de dados, e não apenas instalações dedicadas à inteligência artificial.

Essas projeções dependem da expansão efetiva das instalações, de sua eficiência e da demanda por serviços digitais. Não são resultados assegurados, mas indicam a dimensão do desafio de planejamento.

Mesmo um país com empresas líderes em inteligência artificial pode encontrar limites à expansão de sua capacidade computacional se o fornecimento elétrico não acompanhar os projetos.

A disputa tecnológica, portanto, também será decidida por usinas, transformadores, redes de transmissão e sistemas de armazenamento.

A China e a competição pela infraestrutura

A rivalidade entre Washington e Pequim costuma ser analisada a partir de tarifas comerciais, semicondutores e restrições à exportação de tecnologias avançadas.

A China construiu uma extensa base industrial e ampliou sua capacidade de geração elétrica para atender à produção manufatureira, à urbanização e ao desenvolvimento tecnológico. Ao mesmo tempo, consolidou posições importantes em segmentos ligados a painéis solares, baterias e equipamentos utilizados na transição energética.

Os Estados Unidos, por sua vez, possuem vantagens relevantes na produção de petróleo e gás, na pesquisa tecnológica, no financiamento e em diferentes áreas da indústria energética.

As duas potências dispõem de recursos distintos. Uma comparação entre elas precisa considerar custos, capacidade industrial, inovação e segurança do abastecimento, além da disponibilidade de cada fonte energética.

Para Washington, ampliar a produção doméstica pode reduzir determinadas dependências. Entretanto, a infraestrutura elétrica moderna também utiliza equipamentos, componentes e minerais integrados a cadeias internacionais de fornecimento.

Em 26 de agosto de 2026, a Casa Branca declarou uma emergência nacional relativa à segurança do fornecimento estrangeiro de equipamentos para o sistema elétrico de grande porte. A ordem cita riscos de sabotagem, acesso remoto e interrupção de suprimentos, em um contexto de maior dependência de eletricidade pela indústria, pelos centros de dados e pela defesa.

A medida evidencia uma dimensão adicional da segurança energética: proteger os equipamentos e as cadeias de fornecimento que mantêm a eletricidade disponível. Abundância de combustíveis não elimina essas vulnerabilidades.

O retorno da energia nuclear

A necessidade de geração contínua para atender à expansão industrial e digital reforça o interesse pela energia nuclear. Isso não dispensa a avaliação de custos e prazos de cada projeto.

Em maio de 2025, Trump assinou medidas destinadas a acelerar o desenvolvimento nuclear americano, incluindo mudanças regulatórias e iniciativas voltadas a novos reatores.

A administração estabeleceu como objetivo ampliar a capacidade nuclear instalada de aproximadamente 100 gigawatts, em 2024, para 400 gigawatts até 2050. Trata-se de uma meta governamental, não de uma expansão já contratada ou assegurada.

Mas a expansão nuclear enfrenta obstáculos conhecidos. Projetos podem exigir investimentos elevados, prazos prolongados, mão de obra especializada, combustível adequado e sistemas rigorosos de segurança.

Os reatores modulares de pequeno porte despertam interesse justamente pela possibilidade de desenvolver novos modelos de implantação. Ainda assim, sua competitividade econômica em larga escala dependerá de resultados industriais e comerciais que não podem ser presumidos.

A expansão nuclear coloca um dilema institucional: acelerar o licenciamento sem comprometer a capacidade técnica de fiscalização e os padrões de segurança.

A redução de procedimentos desnecessários pode acelerar investimentos. A perda de capacidade regulatória, por outro lado, pode comprometer a confiança necessária para financiá-los.

A abundância tem limites

A estratégia de ampliar a produção energética apresenta vantagens econômicas e geopolíticas, mas também envolve custos e escolhas.

A expansão da produção de petróleo e gás pode gerar receitas e sustentar atividades industriais. Esses investimentos, porém, estão sujeitos à volatilidade de preços, às mudanças tecnológicas e a riscos regulatórios. Também envolvem emissões de gases de efeito estufa, cujos impactos precisam integrar a avaliação da política energética.

Eventos climáticos extremos também podem afetar redes elétricas, instalações industriais e sistemas de transporte. A confiabilidade energética depende, portanto, de infraestrutura resistente e planejamento de longo prazo.

Da mesma forma, ampliar a produção de eletricidade sem modernizar a transmissão pode deslocar o problema de uma etapa para outra.

A abundância energética precisa ser medida pela capacidade efetiva de atender consumidores e empresas, e não apenas pelo volume de recursos disponíveis.

O discurso de dominância energética pode mobilizar decisões políticas. A competitividade, entretanto, será determinada por custos, produtividade, confiabilidade e capacidade de execução.

O que o Brasil deveria observar

Para o Brasil, a experiência americana oferece uma reflexão que vai além das preferências políticas de Washington.

O país dispõe de petróleo, gás natural, hidrelétricas, potencial eólico e solar, além de recursos minerais importantes para diferentes tecnologias energéticas.

Essa diversidade representa uma vantagem. Mas possuir recursos naturais não garante, automaticamente, competitividade industrial.

O Brasil precisa discutir como sua oferta energética pode sustentar indústrias de maior valor agregado, atrair investimentos tecnológicos e ampliar a produtividade. Também precisa enfrentar gargalos de transmissão, custos de capital, insegurança regulatória e dificuldades de planejamento.

A discussão brasileira precisa conectar a disponibilidade de energia às condições para investir e produzir. A escolha de novos projetos deve considerar custos, impactos ambientais e as necessidades de cada região.

Exportar recursos naturais pode gerar receitas importantes. Utilizar parte dessas vantagens para desenvolver tecnologia, indústria e infraestrutura pode produzir efeitos mais duradouros.

Muito além do petróleo

A recuperação industrial depende de energia competitiva; a expansão da inteligência artificial exige eletricidade confiável. Ambas precisam de infraestrutura resistente e de fornecedores capazes de acompanhar a demanda.

Trump colocou a energia no centro de sua agenda econômica. O resultado dessa aposta precisará ser avaliado pela evolução dos custos, pela confiabilidade do abastecimento e pela capacidade de converter recursos em produção industrial e desenvolvimento tecnológico.

O século XXI continuará dependendo do petróleo e do gás, mas será igualmente marcado pela disputa por eletricidade, redes, capacidade nuclear, armazenamento e infraestrutura digital.

Na disputa tecnológica, ter acesso aos melhores processadores será insuficiente se a eletricidade não chegar a eles com segurança e a um custo viável.

FONTES E REFERÊNCIAS

U.S. Energy Information Administration (EIA). Short-Term Energy Outlook, 6 de outubro de 2026. Indicadores de produção e geração elétrica reproduzidos no comunicado da edição: https://www.eia.gov/pressroom/releases/press593.php

The White House. Declaring a National Energy Emergency. Ordem Executiva 14156, 20 de janeiro de 2025. https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/01/declaring-a-national-energy-emergency/

The White House. Establishing the National Energy Dominance Council. Ordem Executiva 14213, 14 de fevereiro de 2025. https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/02/establishing-the-national-energy-dominance-council/

The White House. Ordering the Reform of the Nuclear Regulatory Commission. Ordem Executiva 14300, 23 de maio de 2025. https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/05/ordering-the-reform-of-the-nuclear-regulatory-commission/

The White House. Reinvigorating the Nuclear Industrial Base. Ordem Executiva 14302, 23 de maio de 2025. https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/05/reinvigorating-the-nuclear-industrial-base/

The White House. Declaring a National Emergency to Secure the United States Bulk-Power System. Ordem Executiva 14421, 26 de agosto de 2026. Texto oficial: https://www.govinfo.gov/content/pkg/DCPD-202600561/html/DCPD-202600561.htm

Lawrence Berkeley National Laboratory. United States Data Center Energy Usage Report: 2025 Update. Junho de 2026. https://bies.lbl.gov/publications/united-states-data-center-energy-2025

International Energy Agency (IEA). Energy and AI. https://www.iea.org/reports/energy-and-ai

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