A CORRIDA PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - Estados Unidos, China e a disputa pelo poder econômico do século XXI


Por Leonardo Vieira — Advogado | Jornalista | OAB/PB 23.141 | DRT 3.295

A disputa pela inteligência artificial expõe um paradoxo do poder contemporâneo: quanto mais avançada se torna a tecnologia, maior é sua dependência de recursos tradicionais, como energia, capacidade industrial, infraestrutura e capital. Por trás de sistemas capazes de processar informações e executar tarefas complexas existe uma estrutura material cuja construção exige investimentos bilionários e decisões estratégicas de longo prazo.

Estados Unidos e China compreenderam que essa transformação poderá influenciar a distribuição do poder econômico nas próximas décadas. Washington procura preservar sua liderança científica e empresarial. Pequim busca reduzir dependências tecnológicas e transformar sua capacidade industrial em vantagem competitiva.

A rivalidade, entretanto, não será resolvida simplesmente pela criação do sistema mais sofisticado. O verdadeiro desafio consiste em transformar avanços tecnológicos em produtividade, crescimento econômico e influência internacional.

Essa distinção muda a maneira de compreender a corrida pela inteligência artificial. Não basta desenvolver uma tecnologia poderosa. É necessário criar condições para que ela produza resultados concretos.

E é justamente nessa capacidade de transformar inovação em riqueza que a competição entre as duas maiores economias do mundo poderá encontrar seu desfecho mais importante.

Duas potências e diferentes vantagens

Os Estados Unidos construíram sua posição na economia digital por meio de uma combinação de universidades, empresas inovadoras, investidores e centros de pesquisa. Esse ambiente permitiu transformar descobertas científicas em produtos comercializados internacionalmente e consolidou a presença americana em setores estratégicos.

A inteligência artificial encontrou nessa estrutura um campo favorável à expansão.

Segundo o AI Index Report 2026, da Universidade Stanford, os investimentos privados americanos em inteligência artificial alcançaram aproximadamente US$ 285,9 bilhões em 2025. Na China, o valor identificado foi de cerca de US$ 12,4 bilhões.

A diferença é expressiva, mas não representa uma comparação completa de todos os recursos mobilizados pelos dois países. O indicador não captura integralmente o financiamento promovido por mecanismos estatais chineses, circunstância que exige cautela na interpretação dos números.

Ainda assim, a dimensão do capital americano demonstra a capacidade de financiar pesquisas, ampliar centros de dados e desenvolver produtos destinados a mercados internacionais.

Empresas como Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta integram um ecossistema no qual investimentos privados, conhecimento científico e infraestrutura tecnológica se reforçam mutuamente.

A China, por sua vez, procura competir utilizando características próprias de sua organização econômica.

O país combina planejamento governamental, políticas industriais, instituições de pesquisa e empresas comerciais para desenvolver tecnologias consideradas estratégicas.

Sua extensa base manufatureira oferece oportunidades para incorporar inteligência artificial à produção industrial, à robótica, aos transportes e à logística.

Essa diferença é fundamental.

Enquanto a liderança americana se destaca na pesquisa avançada, no financiamento e nas plataformas digitais, a estratégia chinesa busca ampliar a integração entre desenvolvimento tecnológico e capacidade produtiva.

Não significa que cada país esteja restrito a essas atividades. Ambos competem em diferentes segmentos. Entretanto, suas vantagens estruturais ajudam a explicar caminhos distintos para alcançar resultados econômicos.

A inovação que precisa chegar à economia real

O desenvolvimento de sistemas inteligentes não garante, por si só, aumento de produtividade.

Uma empresa pode adquirir tecnologias avançadas sem obter melhorias relevantes caso não consiga adaptar seus processos, qualificar profissionais ou identificar aplicações adequadas.

Esse problema ultrapassa o setor empresarial.

Governos, universidades e instituições de pesquisa também precisam reorganizar atividades para aproveitar as possibilidades oferecidas pela inteligência artificial.

O impacto econômico dependerá menos da simples disponibilidade de ferramentas e mais da capacidade de incorporá-las de maneira eficiente.

Essa realidade introduz uma variável decisiva na competição entre Estados Unidos e China.

O país que desenvolver modelos tecnologicamente superiores não necessariamente obterá os maiores ganhos econômicos. Soluções menos sofisticadas, quando aplicadas em grande escala, podem produzir resultados expressivos na indústria e nos serviços.

A China possui condições relevantes para explorar essa possibilidade por meio de sua estrutura manufatureira. Os Estados Unidos, por outro lado, contam com empresas capazes de distribuir produtos e serviços digitais internacionalmente.

O AI Index 2026 também registra que a distância de desempenho entre modelos avançados desenvolvidos nos dois países diminuiu, tornando determinadas áreas da competição mais equilibradas.

Isso não elimina as vantagens americanas, mas demonstra que a liderança tecnológica precisa ser continuamente renovada.

A questão, portanto, deixa de ser apenas quem possui a inteligência artificial mais avançada.

Passa a ser quem consegue utilizá-la para produzir melhor, reduzir custos, desenvolver mercados e ampliar sua capacidade de inovação.

Semicondutores e os limites da autonomia tecnológica

A inteligência artificial depende de componentes cuja produção está distribuída por uma complexa rede internacional de fornecedores.

Entre eles, os semicondutores avançados ocupam posição central.

Os Estados Unidos possuem empresas fundamentais no desenvolvimento de processadores e em diferentes segmentos do ecossistema tecnológico. Entretanto, parte importante da fabricação dos chips mais sofisticados ocorre fora de seu território, especialmente em Taiwan.

Essa distribuição internacional cria vulnerabilidades que atingem tanto americanos quanto chineses.

Uma interrupção significativa no fornecimento de semicondutores poderia comprometer pesquisas, investimentos e atividades produtivas em diferentes regiões.

Por essa razão, o controle sobre componentes estratégicos passou a integrar diretamente as políticas econômicas e de segurança nacional.

Washington procura ampliar a produção doméstica, proteger tecnologias sensíveis e administrar a transferência internacional de equipamentos avançados.

A China, por sua vez, investe no desenvolvimento de alternativas nacionais para reduzir sua exposição às restrições comerciais.

Entretanto, limitar o acesso chinês à tecnologia americana envolve um dilema.

Restrições rigorosas podem dificultar avanços de concorrentes estratégicos, mas também estimular a criação de soluções próprias. Uma abertura comercial ampla pode beneficiar fabricantes americanos, embora provoque preocupações relacionadas à segurança nacional.

Em janeiro de 2026, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos revisou a política de licenciamento para determinados processadores avançados destinados à China. A regra passou a permitir a análise individual de solicitações envolvendo produtos como o Nvidia H200 e o AMD MI325X, mediante requisitos específicos.

A mudança não representou uma liberação irrestrita das exportações.

Demonstrou, sobretudo, a dificuldade de conciliar interesses comerciais, competitividade industrial e objetivos de segurança.

Na disputa tecnológica, restringir o concorrente nem sempre significa fortalecer automaticamente a própria posição.

Trump e a estratégia americana de liderança

A inteligência artificial ganhou destaque explícito na agenda econômica e estratégica do segundo mandato de Donald Trump.

Em julho de 2025, a Casa Branca apresentou o America's AI Action Plan, estruturado em três grandes frentes: acelerar a inovação, ampliar a infraestrutura americana e fortalecer a liderança internacional dos Estados Unidos em tecnologia e segurança.

A iniciativa evidencia que Washington considera a inteligência artificial uma questão de competitividade nacional.

O plano aborda a necessidade de construir centros de dados, ampliar a disponibilidade de energia, estimular pesquisas e fortalecer a presença internacional das soluções americanas.

Outro aspecto importante é a estratégia de promover conjuntos tecnológicos integrados.

A comercialização de equipamentos, programas, modelos e serviços permite estabelecer relações duradouras com empresas e governos estrangeiros.

Ao adotar determinada infraestrutura, uma organização pode passar a depender de atualizações, manutenção, capacitação e compatibilidade com os sistemas do fornecedor.

Essas relações ultrapassam o valor inicial dos contratos.

Podem influenciar escolhas futuras e consolidar posições comerciais por longos períodos.

A China também procura ampliar a presença internacional de suas tecnologias, oferecendo alternativas que podem competir em preço, eficiência e adequação às necessidades de diferentes mercados.

Dessa forma, a rivalidade entre as potências poderá influenciar decisões de países que não participam diretamente do conflito estratégico.

A disputa não envolve apenas a venda de inteligência artificial. Envolve também a capacidade de estabelecer plataformas e padrões que orientarão parte do funcionamento da economia digital.

Energia: a dimensão física do poder digital

A expansão da inteligência artificial colocou a infraestrutura energética no centro de uma discussão antes predominantemente tecnológica.

Centros de dados dependem de eletricidade para operar servidores, sistemas de comunicação e equipamentos de refrigeração. A ampliação da capacidade computacional exige investimentos que vão além da aquisição de processadores.

Segundo projeções atualizadas da Agência Internacional de Energia, o consumo mundial de eletricidade dos centros de dados poderá aproximadamente dobrar entre 2025 e 2030, passando de 485 para cerca de 950 terawatts-hora no cenário central.

Esses valores representam estimativas condicionadas ao ritmo de expansão da infraestrutura, à eficiência dos equipamentos e à demanda efetiva por serviços digitais.

Mesmo assim, revelam uma questão estratégica.

A liderança em inteligência artificial dependerá também da capacidade de construir instalações, ampliar redes elétricas e assegurar fornecimento confiável de energia.

Os Estados Unidos possuem recursos importantes na produção de gás natural, na geração nuclear e em outras fontes. A China ampliou sua infraestrutura energética e desenvolveu capacidade industrial expressiva na fabricação de equipamentos para o setor.

Ambos enfrentam limitações.

Projetos americanos podem encontrar obstáculos relacionados à conexão de novas instalações às redes existentes. A China precisa administrar o crescimento da demanda energética, a segurança do abastecimento e seus compromissos ambientais.

A eletricidade tornou-se, portanto, uma condição concreta para a expansão da inteligência artificial.

Essa realidade demonstra que a economia digital não está separada da indústria tradicional.

Ao contrário, seu desenvolvimento depende de obras, equipamentos, recursos físicos e decisões de investimento que exigem planejamento de longo prazo.

Talentos, segurança e confiança

A corrida tecnológica também depende de pessoas.

Pesquisadores, engenheiros, especialistas em semicondutores e profissionais capazes de aplicar inteligência artificial em diferentes atividades representam recursos estratégicos para qualquer economia.

Os Estados Unidos construíram parte de sua liderança científica atraindo profissionais de diversas regiões do mundo.

Entretanto, o AI Index 2026 aponta uma redução relevante no fluxo de pesquisadores e desenvolvedores de inteligência artificial que se transferem para o país.

Essa tendência não significa o desaparecimento de sua capacidade de inovação. Demonstra, porém, a importância de preservar condições favoráveis à pesquisa e à atração de profissionais qualificados.

A China também amplia investimentos em educação científica, pesquisa e formação tecnológica.

O conhecimento tornou-se uma dimensão da competição que não pode ser substituída apenas por recursos financeiros.

Há, ainda, uma preocupação crescente com a segurança e a confiabilidade dos sistemas.

A inteligência artificial pode apoiar atividades de pesquisa, análise de informações e proteção de infraestruturas digitais. Entretanto, também apresenta riscos relacionados a falhas, informações incorretas, vieses e utilização inadequada de dados.

Essas vulnerabilidades exigem mecanismos de avaliação e supervisão.

Uma tecnologia não se torna automaticamente confiável por ter sido desenvolvida nos Estados Unidos ou na China.

Para empresas e governos, a escolha de sistemas dependerá também de critérios como segurança, transparência, desempenho e proteção de informações.

Nesse cenário, a confiança poderá constituir uma vantagem competitiva importante, especialmente em setores que dependem de informações sensíveis e operações essenciais.

Uma competição que poderá ter diferentes líderes

A expressão corrida tecnológica costuma sugerir uma disputa cujo resultado será a vitória de apenas um competidor.

A realidade da inteligência artificial é mais complexa.

O desenvolvimento dessa tecnologia envolve pesquisa científica, produção de semicondutores, infraestrutura computacional, aplicações industriais, serviços digitais e capacidade de distribuição internacional.

Nenhuma dessas atividades depende exclusivamente de um único país.

Os Estados Unidos podem preservar posições privilegiadas em modelos avançados, plataformas e financiamento.

A China pode conquistar vantagens relevantes na automação, nas aplicações industriais e na disseminação de sistemas de menor custo.

Outras economias continuarão desempenhando funções essenciais no fornecimento de componentes e equipamentos.

A liderança, portanto, poderá assumir formas diferentes conforme o setor analisado.

Também poderá mudar ao longo do tempo.

Novas descobertas, políticas industriais, investimentos e transformações econômicas poderão alterar as vantagens hoje existentes.

Isso exige cuidado com previsões definitivas.

O avanço chinês não representa necessariamente o fim da liderança americana. Da mesma forma, a superioridade atual dos Estados Unidos em determinadas áreas não garante sua permanência indefinida.

A competição deverá ser avaliada pelos resultados econômicos produzidos, e não apenas por demonstrações de capacidade tecnológica.

O Brasil diante de uma decisão estratégica

Para o Brasil, a rivalidade entre Estados Unidos e China apresenta uma oportunidade de modernização econômica, mas também o risco de ampliar dependências estruturais.

O país não precisa dominar todas as etapas da produção de inteligência artificial para aproveitar seus benefícios.

Entretanto, limitar sua participação à aquisição de ferramentas estrangeiras poderá restringir a criação de conhecimento, empregos especializados e soluções tecnológicas próprias.

A economia brasileira possui setores nos quais a aplicação de sistemas inteligentes pode oferecer resultados relevantes.

A indústria pode utilizar essas ferramentas para melhorar processos produtivos. A agricultura pode ampliar o uso de informações na gestão de atividades. A logística pode aperfeiçoar operações, enquanto empresas de serviços podem desenvolver novas formas de atendimento e organização.

Essas possibilidades, contudo, não se concretizam automaticamente.

Dependem de infraestrutura digital, qualificação profissional, pesquisa aplicada e investimentos que permitam incorporar tecnologia às atividades econômicas.

Também será necessário avaliar a concentração internacional de serviços de nuvem, processamento de informações e plataformas digitais.

A dependência de fornecedores estrangeiros não constitui, por si só, um problema incontornável. A participação em cadeias globais pode contribuir para o desenvolvimento nacional.

O risco surge quando essa integração ocorre sem a formação de competências próprias e sem capacidade suficiente para negociar, adaptar e desenvolver soluções.

Por isso, a escolha brasileira não precisa ser uma adesão automática à estratégia de Washington ou Pequim.

O interesse nacional está em estabelecer parcerias que ampliem a capacidade produtiva, fortaleçam a pesquisa e permitam maior participação nas atividades de geração de valor.

A experiência econômica demonstra que consumir tecnologias desenvolvidas no exterior não equivale a dominar os conhecimentos necessários para produzi-las ou aperfeiçoá-las.

O Brasil precisará encontrar uma posição que permita aproveitar a transformação digital sem permanecer restrito ao papel de mercado consumidor.

Essa é uma decisão econômica e estratégica, não apenas tecnológica.

O verdadeiro significado da corrida

A disputa pela inteligência artificial está modificando a maneira como Estados Unidos e China organizam investimentos, políticas industriais e estratégias internacionais.

Washington procura preservar sua liderança por meio da inovação, da infraestrutura e da presença global de suas empresas.

Pequim busca reduzir vulnerabilidades e utilizar sua capacidade industrial para ampliar a competitividade tecnológica.

Os dois países precisarão enfrentar limitações relacionadas a semicondutores, energia, formação profissional e incorporação da tecnologia à produção.

Nenhum deles possui garantia de liderança permanente.

A inteligência artificial poderá ampliar a produtividade, modificar setores econômicos e criar novas possibilidades de desenvolvimento. Seus benefícios, entretanto, dependerão da capacidade de empresas e instituições transformarem essas possibilidades em resultados concretos.

Para o Brasil e outras economias, a principal questão será identificar como participar dessa transformação em condições que favoreçam o desenvolvimento nacional.

A corrida não será decidida apenas por quem lançar o modelo mais avançado, construir o maior centro de dados ou anunciar o maior investimento.

Esses elementos são importantes, mas não suficientes.

O que determinará a dimensão econômica da inteligência artificial será sua capacidade de produzir riqueza, fortalecer instituições e ampliar a competitividade das economias que conseguirem utilizá-la.

No século XXI, o poder tecnológico não será medido apenas pela inteligência das máquinas, mas pela capacidade das nações de transformá-la em desenvolvimento econômico.

FONTES E REFERÊNCIAS

Stanford University — Institute for Human-Centered Artificial Intelligence. AI Index Report 2026. Indicadores de investimentos privados, desempenho tecnológico, pesquisa científica e mobilidade internacional de profissionais.
https://hai.stanford.edu/ai-index/2026-ai-index-report

The White House. America's AI Action Plan. Julho de 2025. Diretrizes sobre inovação, infraestrutura e projeção internacional da tecnologia americana.
https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/07/Americas-AI-Action-Plan.pdf

The White House. Promoting the Export of the American AI Technology Stack. Ordem Executiva 14320, de 23 de julho de 2025.
https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/07/promoting-the-export-of-the-american-ai-technology-stack/

U.S. Department of Commerce — Bureau of Industry and Security. Department of Commerce Revises License Review Policy for Semiconductors Exported to China. Comunicado de 13 de janeiro de 2026.
https://www.bis.gov/press-release/department-commerce-revises-license-review-policy-semiconductors-exported-china

International Energy Agency. Energy and AI. Abril de 2025.
https://www.iea.org/reports/energy-and-ai

International Energy Agency. Key Questions on Energy and AI. Atualização das projeções de consumo de eletricidade por centros de dados.
https://www.iea.org/reports/key-questions-on-energy-and-ai

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