Por Leonardo Vieira - Advogado | Jornalista | OAB/PB 23141 | DRT 3295
Durante boa parte das últimas duas décadas, uma pergunta passou a
ocupar o centro das discussões sobre a economia mundial: quando a China
ultrapassaria os Estados Unidos?
A pergunta continua relevante, mas talvez precise ser reformulada.
A China tornou-se uma potência econômica e industrial
extraordinária. Sua capacidade de produzir em escala, investir em
infraestrutura, dominar cadeias de suprimentos e ampliar sua presença em
setores tecnológicos transformou profundamente a economia mundial.
Mas o modelo chinês começa a enfrentar desafios estruturais
importantes.
O crescimento desacelerou. A demanda doméstica permanece
relativamente fraca. O setor imobiliário enfrenta dificuldades. A população
envelhece. A produtividade tende a crescer mais lentamente. E o elevado
investimento realizado durante décadas apresenta retornos cada vez menores.
O Fundo Monetário Internacional aponta justamente esses fatores como
obstáculos ao crescimento potencial chinês no médio prazo, destacando o
envelhecimento populacional, a desaceleração da produtividade e a necessidade
de reequilibrar a economia em direção ao consumo doméstico.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam ocupando uma posição
singular.
A economia americana também possui problemas importantes.
Crescimento mais moderado, inflação, déficits fiscais e dívida pública elevada
são desafios reais.
Mas existe uma diferença fundamental.
Os Estados Unidos continuam combinando capital, tecnologia,
inovação, empresas globais, mercado consumidor, universidades, sistema
financeiro e o papel internacional do dólar em uma escala que nenhum outro país
consegue reproduzir integralmente.
E Washington agora tenta acrescentar a essa combinação uma dimensão
que havia perdido espaço nas últimas décadas: a capacidade industrial
estratégica.
É nesse contexto que a política econômica de Donald Trump precisa
ser analisada.
A China construiu uma extraordinária máquina industrial
Não há como compreender a economia mundial atual sem reconhecer o
tamanho da transformação chinesa.
A China deixou de ser apenas uma economia de mão de obra barata e
passou a competir em segmentos cada vez mais sofisticados.
Automóveis elétricos, baterias, equipamentos industriais, máquinas,
painéis solares, tecnologia e diversos componentes estratégicos fazem parte de
uma estrutura produtiva que poucos países conseguem igualar em escala.
O problema não é a capacidade de produção.
É o equilíbrio entre produção e demanda.
O FMI vem defendendo uma mudança no modelo chinês, com maior
participação do consumo doméstico no crescimento e menor dependência de
investimento e exportações. O organismo também aponta a necessidade de reformas
estruturais para enfrentar a redução da produtividade e o envelhecimento
populacional.
Os dados mais recentes mostram justamente essa tensão.
O PIB chinês cresceu 4,3% no segundo trimestre de 2026, abaixo dos
5% registrados no primeiro trimestre e no ritmo mais fraco em mais de três
anos. Em agosto, a atividade manufatureira melhorou e o PMI voltou a indicar
expansão, mas a demanda doméstica continuou sendo apontada como um ponto de
fragilidade.
Isso não significa que a China esteja entrando em colapso.
Significa algo mais importante: a China está chegando a uma etapa em
que simplesmente produzir mais já não resolve todos os seus problemas.
A força chinesa também produz vulnerabilidades
Durante anos, a grande vantagem chinesa foi produzir em escala e
vender para o mundo.
Agora, essa mesma característica pode se transformar parcialmente em
vulnerabilidade.
Quanto maior a capacidade de produção de uma economia em relação ao
seu consumo interno, maior a necessidade de encontrar mercados externos.
E quanto maior essa dependência, maior também a exposição às
barreiras comerciais impostas por outras economias.
Esse é um dos motivos pelos quais a política comercial americana
ganhou tanta importância.
A questão não é simplesmente quanto a China consegue produzir.
É quantos países estarão dispostos a absorver indefinidamente essa
produção.
Em 2026, o debate sobre os desequilíbrios comerciais chineses voltou
ao centro das discussões internacionais, com autoridades americanas
pressionando parceiros do G20 a enfrentar o problema.
A China continua sendo uma potência.
Mas potência não significa ausência de fragilidade.
Os Estados Unidos têm um conjunto de vantagens que vai
além do PIB
É comum comparar Estados Unidos e China apenas pelo tamanho do
Produto Interno Bruto.
Essa comparação é insuficiente.
A verdadeira vantagem americana está na combinação de fatores.
Capital.
Tecnologia.
Empresas globais.
Mercado consumidor.
Universidades.
Pesquisa científica.
Sistema financeiro.
Empreendedorismo.
Propriedade intelectual.
E o dólar como principal moeda de reserva internacional.
Essa combinação cria uma capacidade extraordinária de transformar
conhecimento em capital, capital em empresas e empresas em escala global.
A inteligência artificial é um exemplo dessa dinâmica.
A nova revolução tecnológica está demandando investimentos
gigantescos em semicondutores, computação, energia, centros de dados e
infraestrutura digital.
Os Estados Unidos estão no centro dessa transformação.
Isso não significa que a economia americana esteja crescendo de
forma excepcional em todos os momentos.
O PIB real cresceu 1,5% em ritmo anualizado no segundo trimestre de
2026, depois de 2,1% no primeiro trimestre.
Mas crescimento trimestral não é a única medida de poder econômico.
A questão é quem possui as empresas, a tecnologia, o capital e os
mercados capazes de determinar a direção do próximo ciclo de crescimento.
E, nesse aspecto, os Estados Unidos continuam em uma posição
extraordinariamente forte.
Trump entendeu que comércio também é poder
É nesse ponto que a estratégia de Donald Trump merece ser observada
para além da polarização política.
Sua política comercial pode ser contestada.
Tarifas podem aumentar custos, provocar retaliações e produzir
ineficiências.
Mas existe uma lógica estratégica clara por trás da política de
America First: reduzir vulnerabilidades externas e incentivar a produção
doméstica em setores considerados estratégicos.
A agenda comercial americana de 2026 declara como objetivo
fortalecer trabalhadores e empresas americanas e promover o investimento e a
produção doméstica.
Em março, o U.S. Trade Representative também iniciou investigações
sob a Section 301 relacionadas ao que Washington classifica como excesso
estrutural de capacidade produtiva estrangeira, vinculando a iniciativa aos
esforços de reindustrialização americana.
Pode-se discordar dos instrumentos.
Mas é difícil negar a existência de uma estratégia.
Washington está tratando capacidade produtiva como parte do poder
nacional.
A nova disputa não é apenas comercial
Essa talvez seja a principal mudança da economia mundial.
Durante a fase mais intensa da globalização, muitas empresas
adotaram uma lógica simples: produzir onde fosse mais barato.
Hoje, essa decisão passou a envolver outros critérios.
Onde estão os semicondutores?
Quem controla os minerais críticos?
Quem possui as tecnologias de inteligência artificial?
Quem consegue produzir baterias?
Quem domina a infraestrutura digital?
Quem possui energia confiável e barata?
Quem consegue fabricar equipamentos de defesa?
Essas perguntas deixaram de ser exclusivamente empresariais.
Passaram a ser também geopolíticas.
A pandemia demonstrou como cadeias excessivamente concentradas podem
se transformar em vulnerabilidades. A competição entre Estados Unidos e China
aprofundou essa percepção.
Por isso, a política industrial voltou ao centro do debate nas
grandes potências.
E o Brasil?
É aqui que a discussão se torna realmente importante.
Porque o Brasil possui uma situação completamente diferente.
Não somos a China.
Não temos uma gigantesca capacidade industrial exportadora.
Também não somos os Estados Unidos.
Não temos o mesmo ecossistema de capital, tecnologia, inovação e
empresas globais.
Mas possuímos algo extraordinário:
recursos naturais, energia, território, agricultura, minerais,
petróleo, água e um enorme mercado consumidor.
O problema é transformar essas vantagens em produtividade e valor.
E é justamente aí que nossa política econômica apresenta
fragilidades.
O Brasil não é pobre em recursos. É pobre em produtividade
O FMI é bastante claro ao avaliar a economia brasileira.
O organismo considera que a economia mostrou resiliência diante de
múltiplos choques e projeta crescimento de 2,4% em 2026. Mas também destaca
desafios fiscais e estruturais importantes, entre eles a dívida pública elevada
e crescente e o baixo crescimento da produtividade.
Essa combinação deveria preocupar.
Porque crescimento econômico sem aumento significativo de
produtividade dificilmente produz uma transformação duradoura.
Um país pode crescer porque exportou mais commodities.
Pode crescer porque o consumo aumentou.
Pode crescer porque determinadas condições externas foram
favoráveis.
Mas, para enriquecer de maneira consistente, precisa produzir mais
por trabalhador, inovar mais, investir mais e criar produtos de maior valor
agregado.
O problema fiscal também é um problema de competitividade
A discussão fiscal costuma ser apresentada como uma questão
contábil.
Não é.
Dívida, juros e gasto público afetam diretamente a capacidade de
investimento de uma economia.
Quando a dívida cresce e o mercado exige prêmio maior para financiar
o Estado, o custo de capital aumenta.
E quando o capital fica mais caro, o investimento privado tende a
ser prejudicado.
O próprio FMI, em sua avaliação de 2026, recomenda ao Brasil um
esforço fiscal mais ambicioso, redução das rigidezes do orçamento e uma
trajetória de dívida mais sustentável.
Essa não é uma discussão entre esquerda e direita.
É uma questão de matemática econômica.
Um país que compromete parcela crescente de seus recursos com
despesas rígidas e serviço da dívida dispõe de menos espaço para investir
naquilo que aumenta sua capacidade produtiva.
O Custo Brasil é uma desvantagem competitiva
O empresário brasileiro não compete apenas com seu concorrente
brasileiro.
Ele compete com empresas americanas, chinesas, mexicanas, indianas,
vietnamitas e europeias.
Se uma empresa brasileira precisa lidar com uma estrutura tributária
complexa, burocracia, infraestrutura deficiente, insegurança jurídica e custo
elevado de capital, sua competição internacional começa em desvantagem.
Isso não significa que o empresário brasileiro seja menos eficiente.
Muitas vezes acontece justamente o contrário.
O empresário brasileiro é obrigado a ser extraordinariamente
eficiente para sobreviver em um ambiente extraordinariamente complexo.
O problema é que eficiência empresarial não consegue compensar
indefinidamente ineficiência sistêmica.
O Brasil continua vendendo aquilo que outros transformam
Existe outro problema.
O Brasil é extremamente eficiente em determinadas etapas das cadeias
produtivas globais.
Produzimos soja.
Minério.
Petróleo.
Café.
Carne.
Celulose.
A questão não é abandonar essas atividades.
É avançar.
Transformar mais minério em produtos industriais.
Transformar mais petróleo em produtos de maior valor.
Transformar alimentos em marcas globais.
Transformar café brasileiro em marcas internacionais.
Transformar biodiversidade em biotecnologia.
Transformar energia em indústria.
Transformar minerais críticos em tecnologia.
A riqueza do futuro não estará apenas em possuir recursos. Estará em
dominar as etapas mais sofisticadas das cadeias de valor.
O Brasil não precisa copiar a China ou os Estados Unidos
Não precisamos escolher entre Washington e Pequim.
Podemos aprender com os dois.
Da China, precisamos compreender a importância de infraestrutura,
escala, indústria e visão de longo prazo.
Dos Estados Unidos, precisamos compreender o poder da iniciativa
privada, da inovação, do capital, da propriedade intelectual, da competição e
da capacidade de transformar tecnologia em empresas globais.
Mas o Brasil precisa construir sua própria estratégia.
Uma estratégia baseada em:
responsabilidade fiscal;
segurança jurídica;
liberdade econômica;
competição;
infraestrutura;
educação técnica;
inovação;
investimento privado;
abertura comercial inteligente;
e agregação de valor.
Não precisamos de um Estado que escolha permanentemente quais
empresas devem vencer.
Precisamos de um ambiente no qual empresas eficientes possam
competir e crescer.
A oportunidade brasileira existe
O cenário internacional também pode representar uma oportunidade.
Se Estados Unidos e China continuarem reorganizando suas cadeias
produtivas, outros países poderão receber investimentos destinados a
diversificar fornecedores.
O Brasil possui características que podem ser extremamente valiosas
nessa nova configuração.
Energia.
Alimentos.
Minerais.
Petróleo.
Agroindústria.
Potencial de energia renovável.
Mercado interno.
Localização estratégica.
Mas oportunidades não se transformam automaticamente em
investimentos.
Capital procura previsibilidade.
Empresas procuram produtividade.
Indústrias procuram infraestrutura.
Tecnologia procura talentos.
E investidores procuram segurança.
Não basta ter o que o mundo precisa. É preciso criar condições para
que o mundo queira produzir conosco.
A próxima década será diferente
O mundo que permitiu ao Brasil crescer simplesmente exportando
commodities está mudando.
A inteligência artificial está reorganizando setores inteiros.
A energia voltou ao centro da geopolítica.
Minerais críticos passaram a ter importância estratégica.
A indústria está sendo reavaliada.
As cadeias globais de produção estão sendo redesenhadas.
E os governos voltaram a enxergar política econômica como
instrumento de segurança nacional.
China e Estados Unidos podem seguir caminhos diferentes.
Mas ambos estão pensando em décadas.
Essa talvez seja a maior lição para o Brasil.
A pergunta que precisamos responder
A China está tentando corrigir os desequilíbrios de um modelo
baseado em investimento, indústria e exportações.
Os Estados Unidos estão tentando preservar sua liderança tecnológica
e financeira enquanto recuperam capacidade produtiva estratégica.
E o Brasil?
Essa é a pergunta que não podemos mais adiar.
Temos recursos.
Temos empresários.
Temos mercado.
Temos energia.
Temos conhecimento.
Temos condições objetivas para ser muito mais ricos e produtivos do
que somos.
O que ainda não temos, na mesma proporção, é uma estratégia
econômica capaz de transformar essas vantagens em poder produtivo.
A China precisa transformar produção em consumo.
Os Estados Unidos querem transformar liderança tecnológica em
liderança industrial renovada.
O Brasil precisa transformar riqueza natural em produtividade.
Essa é a nossa verdadeira batalha.
Porque, em um mundo em que as grandes potências estão disputando
tecnologia, capital, indústria, energia e influência, não haverá espaço para
países que simplesmente esperam que o futuro aconteça.
O Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos e China.
Precisa escolher se quer continuar sendo espectador ou se quer
entrar na disputa.
Sobre o autor
Leonardo Vieira é advogado e jornalista, inscrito na OAB/PB sob o nº
23141 e com DRT nº 3295. Possui trajetória profissional na administração
pública municipal, atuação institucional e planejamento estratégico, além de
experiência empresarial. Escreve sobre economia, gestão, indústria, tecnologia
e transformações do ambiente produtivo.
Fontes principais
·
International Monetary Fund —
People’s Republic of China: 2025 Article IV Consultation, publicado em
fevereiro de 2026.
·
International Monetary Fund —
Brazil: 2026 Article IV Consultation, julho de 2026.
·
International Monetary Fund —
dados e projeções para o Brasil em 2026.
·
U.S. Bureau of Economic
Analysis — PIB dos Estados Unidos, segundo trimestre de 2026.
·
Office of the United States
Trade Representative (USTR) — 2026 Trade Policy Agenda.
·
USTR — investigações da Section
301 sobre excesso estrutural de capacidade e produção.
·
Reuters — atividade
manufatureira chinesa e desempenho do PIB no segundo trimestre de 2026.

