Por Leonardo Vieira — Advogado | Jornalista | OAB/PB nº 23.141 | DRT-PB nº 3.295
Durante décadas, a disputa entre Estados
Unidos e China foi apresentada principalmente como uma competição comercial.
Tarifas, exportações, déficit comercial, fábricas e cadeias de produção
ocupavam o centro do debate.
Mas a competição mudou de natureza.
Hoje, uma das principais frentes da disputa
entre Washington e Pequim envolve um componente que quase ninguém vê, mas que
está presente em praticamente tudo: o semicondutor.
Está no celular, no automóvel, no computador,
no data center, no sistema de defesa, no satélite, na inteligência artificial,
na indústria e até em equipamentos médicos.
Quem consegue projetar, fabricar e acessar os
chips mais avançados amplia sua capacidade de competir em áreas decisivas da
economia, da tecnologia e da segurança do século XXI.
É por isso que a disputa pelos semicondutores
deixou de ser apenas uma questão empresarial. Ela se transformou em uma questão
estratégica.
O pequeno
componente que virou questão de Estado
Um chip pode ser menor que uma moeda. Seu
impacto, entretanto, pode atravessar continentes.
Os semicondutores são fundamentais para a
computação moderna e para sistemas militares, redes de comunicação, energia,
veículos e infraestrutura crítica.
Em janeiro de 2026, o governo dos Estados
Unidos tratou a elevada dependência de cadeias estrangeiras de semicondutores
como um risco econômico e de segurança nacional. A Casa Branca informou que o
país consome aproximadamente um quarto dos semicondutores do mundo, mas fabrica
integralmente apenas cerca de 10% dos chips de que necessita.¹
Esse desequilíbrio ajuda a explicar uma
mudança importante na política americana: Washington busca ampliar a parcela da
fabricação de semicondutores realizada dentro dos Estados Unidos.
Não se trata apenas de criar empregos.
Trata-se também de reduzir vulnerabilidades.
A
estratégia americana
A administração Donald Trump colocou os
semicondutores dentro de uma agenda mais ampla de fortalecimento da capacidade
industrial americana.
Em janeiro de 2026, Trump determinou uma
tarifa de 25% sobre uma categoria estreita de chips avançados e produtos
derivados abrangidos pela medida, com exceções para usos que contribuam para o
fortalecimento da cadeia tecnológica e da capacidade produtiva doméstica dos
Estados Unidos.¹
Entre os produtos relacionados à política
americana para computação avançada estão chips como o Nvidia H200 e o AMD
MI325X.
Ao mesmo tempo, Washington não interrompeu
completamente o comércio de tecnologia com a China.
Também em janeiro, o Departamento de Comércio
dos Estados Unidos alterou sua política de licenciamento e passou a analisar,
caso a caso, pedidos para exportação à China do Nvidia H200, do AMD MI325X e de
produtos semelhantes, desde que atendidos requisitos específicos de segurança,
controle e conformidade.² ³
Essa combinação revela a complexidade da
política americana: proteger tecnologias consideradas estratégicas sem
necessariamente encerrar todo o comércio tecnológico.
É uma linha tênue entre segurança nacional,
competitividade empresarial e liderança tecnológica.
A China não
pretende ficar para trás
Pequim sabe que sua dependência de
determinadas tecnologias estrangeiras pode representar uma vulnerabilidade.
Nesse contexto, a China vem ampliando o
desenvolvimento de fabricantes próprios, aceleradores de inteligência
artificial e uma cadeia doméstica de semicondutores.
As restrições americanas, entretanto,
dificultam o acesso chinês aos chips mais avançados e a determinados
equipamentos e componentes utilizados em sua fabricação.
O resultado é uma corrida tecnológica.
Em setembro de 2026, fabricantes chineses de
chips de inteligência artificial, incluindo Huawei e Cambricon, elevaram preços
em meio à escassez mundial de memória de alta largura de banda, conhecida pela
sigla HBM, componente fundamental para sistemas avançados de inteligência
artificial.
A Reuters relatou que as restrições
americanas à exportação de HBM avançada para a China contribuíram para agravar
as dificuldades de acesso chinês a esse componente.⁴
Do ponto de vista estratégico, quanto maior a
dificuldade de adquirir determinadas tecnologias estrangeiras, maior o
incentivo para desenvolver alternativas domésticas.
Esse movimento pode acelerar a formação de
ecossistemas tecnológicos parcialmente separados.
Taiwan: a
ilha no centro do tabuleiro
Há, porém, uma peça que torna essa disputa
ainda mais delicada: Taiwan.
A ilha abriga a TSMC, uma das empresas mais
importantes da indústria mundial de semicondutores e responsável pela
fabricação de chips avançados utilizados por grandes companhias de tecnologia.
Por isso, a questão dos semicondutores não
pode ser separada da geopolítica do Indo-Pacífico.
Para os Estados Unidos, tornar sua cadeia de
fornecimento mais segura significa também ampliar a fabricação em território
americano e fortalecer relações com parceiros estratégicos.
Esse movimento ganhou nova dimensão em 2026.
Em julho de 2026, a TSMC anunciou
investimento adicional de US$ 100 bilhões nos Estados Unidos, elevando para US$
265 bilhões o total de investimentos planejados pela empresa no país.
O projeto prevê, ao todo, 12 instalações de
fabricação avançada e empacotamento de semicondutores nos Estados Unidos.⁵
É um movimento que vai muito além de uma
fábrica.
É a tentativa de construir um ecossistema.
A fábrica
não é suficiente
Falta, porém, considerar uma questão
frequentemente esquecida nesse debate.
Não basta fabricar o chip.
É necessário dominar uma cadeia extremamente
complexa: equipamentos de fabricação, materiais, software de projeto,
propriedade intelectual, pesquisa, engenharia, empacotamento avançado, memória,
energia e mão de obra altamente especializada.
Assim, a disputa não é simplesmente Estados
Unidos × China.
Ela envolve também Taiwan, Coreia do Sul,
Japão, Países Baixos e diversos outros países que participam de diferentes
etapas da cadeia global.
A ASML, sediada nos Países Baixos, ocupa
posição central no fornecimento de equipamentos de litografia utilizados na
fabricação dos semicondutores mais avançados.
Empresas americanas possuem posição de
destaque em segmentos de projeto de chips, software e propriedade intelectual.
Taiwan concentra parcela relevante da
capacidade mundial de fabricação de chips avançados, especialmente por meio da
TSMC.
Coreia do Sul e Japão também exercem papéis
relevantes em áreas como memória, materiais e equipamentos.
A indústria é global.
E justamente por isso é tão vulnerável às
tensões geopolíticas.
O chip é o
novo petróleo?
A comparação é tentadora, mas precisa ser
feita com cuidado.
O petróleo continua sendo um recurso
energético estratégico.
O semicondutor, entretanto, possui uma
característica diferente: é uma tecnologia habilitadora de praticamente toda a
economia digital contemporânea.
Sem chips avançados, não existe inteligência
artificial moderna em escala.
Não existem os mesmos sistemas de defesa.
Não existem os mesmos data centers.
Não existem os mesmos smartphones, veículos
inteligentes, sistemas industriais e redes de comunicação.
Por isso, talvez a pergunta mais importante
não seja quem possui mais petróleo.
É: quem conseguirá projetar, fabricar e
controlar a tecnologia que move a próxima economia?
A
inteligência artificial mudou o jogo
A expansão da inteligência artificial tornou
essa disputa ainda mais importante.
Modelos avançados de IA dependem de enorme
capacidade computacional.
E essa capacidade depende de chips
especializados.
Isso significa que a corrida pela
inteligência artificial e a corrida pelos semicondutores estão profundamente
conectadas.
Estados Unidos e China sabem disso.
As restrições americanas aos chips avançados
destinados à China vêm sendo utilizadas como instrumento de controle
tecnológico desde 2022.⁶
Em 2026, o tema continuou no centro das
relações entre Washington e Pequim.
Em maio, os Estados Unidos autorizaram cerca
de dez empresas chinesas, entre elas grandes grupos de tecnologia, a adquirir
chips Nvidia H200. Segundo a Reuters, apesar das autorizações americanas, as
entregas ainda não haviam ocorrido, em meio a obstáculos e hesitações dos dois
lados — inclusive orientações de Pequim para priorizar o desenvolvimento
doméstico.⁷
O episódio ocorreu em um contexto de contatos
e negociações de alto nível entre Estados Unidos e China e demonstrou, mais uma
vez, a complexidade dessa política: Washington tenta preservar controles sobre
tecnologias estratégicas e, ao mesmo tempo, administrar interesses comerciais e
diplomáticos.⁸ ⁹
A questão agora é saber até onde essa
estratégia conseguirá limitar o acesso chinês às tecnologias mais avançadas
sem, ao mesmo tempo, acelerar o desenvolvimento de uma indústria chinesa cada
vez mais independente.
Uma nova
divisão tecnológica?
Existe um risco maior por trás dessa disputa.
O mundo pode caminhar para uma fragmentação
tecnológica.
De um lado, um ecossistema liderado pelos
Estados Unidos e seus aliados.
Do outro, um ecossistema chinês cada vez mais
voltado para a autossuficiência.
Isso não significa necessariamente uma
separação completa.
Empresas continuam precisando umas das
outras, mercados permanecem conectados e a fabricação de um único chip pode
envolver diversos países.
Mas uma transformação importante já é
visível: considerações de segurança nacional exercem peso crescente sobre
decisões industriais e empresariais.
A lógica predominante durante décadas era
produzir onde fosse mais barato.
A nova lógica começa a ser produzir onde a
cadeia seja mais segura.
Essa mudança pode tornar a produção mais
cara.
Mesmo assim, governos estão dispostos a
assumir parte desse custo para reduzir vulnerabilidades consideradas
estratégicas.
E o Brasil?
É impossível discutir essa nova economia sem
perguntar onde o Brasil pretende estar.
O país possui mercado consumidor relevante,
fontes de energia, recursos minerais, universidades, pesquisadores e setores
industriais que podem participar de determinadas etapas das cadeias
tecnológicas.
Mas possuir recursos naturais não significa
automaticamente possuir tecnologia.
O verdadeiro desafio é transformar recursos
em conhecimento, pesquisa, indústria, propriedade intelectual e produtos de
alto valor agregado.
A disputa entre Estados Unidos e China pode
representar, portanto, não apenas riscos para países terceiros, mas também
oportunidades.
O Brasil precisará definir se continuará
participando predominantemente como fornecedor de matérias-primas ou se
pretende ampliar sua presença em etapas de maior complexidade tecnológica das
cadeias produtivas que estão sendo reorganizadas.
Essa escolha não depende apenas de uma
fábrica.
Depende de pesquisa, formação profissional,
infraestrutura, financiamento, ambiente institucional e de uma política capaz
de conectar universidades, empresas e desenvolvimento tecnológico.
A guerra
que acontece sem tiros
A guerra dos semicondutores não acontece em
trincheiras.
Ela acontece em laboratórios, fábricas,
universidades, centros de pesquisa, bolsas de valores, escritórios
governamentais e salas de negociação.
Acontece quando Washington restringe uma
exportação.
Quando Pequim financia uma tecnologia
doméstica.
Quando Taiwan amplia sua capacidade de
fabricação.
Quando uma empresa americana projeta um novo
processador.
Quando bilhões de dólares são direcionados
para uma nova cadeia industrial.
E quando governos percebem que um componente
microscópico pode influenciar quem terá maior capacidade de disputar espaço na
economia, na tecnologia e na defesa no futuro.
Os chips podem ser pequenos.
A disputa em torno deles é gigantesca.
E talvez uma das perguntas mais importantes
deste século seja justamente esta:
Quem
controla os chips controla apenas a tecnologia — ou controla também uma parte
do próprio poder mundial?
Leonardo Vieira
Advogado
| Jornalista | OAB/PB nº 23.141 | DRT-PB nº 3.295
FONTES
1. CASA
BRANCA. Adjusting Imports of Semiconductors, Semiconductor
Manufacturing Equipment, and Their Derivative Products Into the United States.
Proclamation, 14 jan. 2026.
Disponível em:
https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2026/01/adjusting-imports-of-semiconductors-semiconductor-manufacturing-equipment-and-their-derivative-products-into-the-united-states/
2. BUREAU OF
INDUSTRY AND SECURITY — BIS, Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Department
of Commerce Revises License Review Policy for Semiconductors Exported to China.
13 jan. 2026.
Disponível em:
https://www.bis.gov/press-release/department-commerce-revises-license-review-policy-semiconductors-exported-china
3. FEDERAL
REGISTER. Revision to License Review Policy for Advanced
Computing Commodities. Final Rule, Bureau of Industry and Security, jan. 2026.
4. REUTERS. China’s
AI chipmakers raise prices as high-bandwidth memory shortage bites. 10 set.
2026.
Disponível em:
https://www.reuters.com/world/asia-pacific/chinas-ai-chipmakers-raise-prices-high-bandwidth-memory-shortage-bites-2026-09-10/
5. NATIONAL
INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY — NIST / U.S. DEPARTMENT OF COMMERCE. Trump
Administration Secures an Additional $100 Billion U.S. Semiconductor
Manufacturing Investment for a Total of $265 Billion from TSMC. 16 jul. 2026.
Disponível em:
https://www.nist.gov/news-events/news/2026/07/trump-administration-secures-additional-100-billion-us-semiconductor
6. BUREAU OF
INDUSTRY AND SECURITY — BIS. Commerce Implements New Export
Controls on Advanced Computing and Semiconductor Manufacturing Items to the
People’s Republic of China. 7 out. 2022.
7. REUTERS. US
clears H200 chip sales to 10 China firms as Nvidia CEO looks for breakthrough.
14 maio 2026.
Disponível em:
https://www.reuters.com/business/retail-consumer/us-clears-h200-chip-sales-10-china-firms-nvidia-ceo-looks-breakthrough-2026-05-14/
8. CNBC. Trump-Xi
summit could hinge on these two crucial tech flashpoints. maio 2026.
9. CENTER
FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES — CSIS. What the
Trump-Xi Summit Revealed, and Left Unsaid, About U.S.-China Tech Competition.
maio 2026.

