Terras raras, poder industrial e a estratégia dos Estados Unidos para reduzir a dependência da China
Por Leonardo Vieira — Advogado | Jornalista | OAB/PB 23141 | DRT 3295
As grandes potências sempre tiveram uma relação íntima com os recursos que sustentam seu poder.
O carvão alimentou a Revolução Industrial. O petróleo transformou o século XX, movimentou exércitos, redesenhou alianças e tornou regiões inteiras estratégicas. O urânio introduziu o mundo na era nuclear.
O século XXI acrescentou outra categoria a essa lista: lítio, cobalto, grafite, gálio, germânio, antimônio, tungstênio e terras raras.
Nomes que durante muito tempo permaneceram restritos às minas, aos laboratórios e aos departamentos de engenharia passaram a frequentar documentos de segurança nacional, negociações diplomáticas e decisões presidenciais.
Existe uma razão.
Sem esses materiais, não há apenas dificuldade para fabricar baterias ou automóveis elétricos. Há problemas para produzir semicondutores, sistemas de comunicação, satélites, radares, motores, ímãs de alta potência, equipamentos aeroespaciais e diversos sistemas militares.
A guerra dos semicondutores, portanto, começa antes do chip. Começa debaixo da terra.
E Washington passou a tratar como questão estratégica algo que durante décadas foi visto predominantemente pela lógica do comércio: uma potência tecnológica não pode ignorar sua dependência de cadeias essenciais concentradas no exterior.
O poder começa na matéria-prima
Durante décadas, grande parte do Ocidente adotou uma premissa economicamente sedutora: se determinado produto pudesse ser obtido de maneira mais barata no exterior, não haveria razão econômica para produzi-lo domesticamente.
Era a lógica da eficiência.
As empresas reduziram custos. As cadeias produtivas atravessaram oceanos. A mineração, o processamento e diferentes etapas da produção industrial migraram para países capazes de oferecer escala, preços menores ou outras vantagens competitivas.
O problema aparece quando eficiência econômica e segurança estratégica deixam de apontar na mesma direção.
Uma cadeia pode ser extraordinariamente eficiente em tempos normais e perigosamente vulnerável durante uma crise.
A pandemia expôs parte desse problema. A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China revelou outra. E os minerais críticos mostram talvez a dimensão mais profunda dessa dependência.
Em janeiro de 2026, após uma investigação do Departamento de Comércio sob a Section 232 da Trade Expansion Act de 1962, o governo dos Estados Unidos afirmou que minerais críticos processados e seus derivados eram essenciais à defesa, à infraestrutura crítica e à capacidade industrial do país. Segundo a proclamação presidencial que reproduziu as conclusões dessa investigação, tomando 2024 como ano-base, os Estados Unidos eram 100% dependentes de importações líquidas de 12 minerais críticos e tinham dependência de 50% ou mais em outros 29. O mesmo documento ressaltou que, mesmo em materiais extraídos domesticamente, como cobalto, níquel e elementos de terras raras, persistiam lacunas de processamento.
É importante explicitar essa base: o dado 12+29 corresponde ao universo e à metodologia da investigação Section 232 citada pela Presidência. Ele não deve ser lido como a fração “12 de 29”, nem como uma contagem universal aplicável a toda classificação possível de minerais críticos.
Não estamos falando de uma dependência periférica. Estamos falando de materiais presentes no coração da economia industrial moderna.
O problema não é apenas quem possui a mina
Existe uma simplificação frequente quando se fala em minerais estratégicos. Olha-se para o mapa e pergunta-se onde estão as reservas.
Mas existe uma pergunta tão importante quanto: quem consegue transformar a rocha em material industrial utilizável?
Extrair é apenas uma etapa. Depois da mina vêm separação, concentração, refino, processamento, fabricação de materiais intermediários e, finalmente, sua incorporação a produtos de alta tecnologia.
É justamente aí que a China construiu uma posição de enorme relevância. Dados da Agência Internacional de Energia mostram que, em 2024, a China respondeu por cerca de 60% da mineração mundial das terras raras usadas em ímãs, 91% de sua produção refinada e 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados. A concentração diminuiu modestamente em algumas etapas desde então, com novos projetos nos Estados Unidos e aumento da produção na Malásia, mas permanece elevada.
O problema estratégico americano, portanto, não pode ser resolvido simplesmente descobrindo novas jazidas.
É necessário reconstruir cadeias que integrem mineração, processamento, refino, metalurgia, reciclagem, engenharia, manufatura, capital humano e capacidade industrial.
A própria proclamação presidencial americana reconheceu esse ponto de maneira explícita: possuir mineração doméstica não elimina a vulnerabilidade quando o processamento continua dependente do exterior.
Essa distinção muda completamente o debate.
A resposta de Washington
A administração Donald Trump passou a enquadrar essa vulnerabilidade como questão de segurança nacional, aproximando política mineral, política industrial e defesa.
Em janeiro de 2026, Trump determinou negociações com parceiros comerciais para enfrentar a dependência de minerais críticos processados e seus derivados. Com base na investigação do Departamento de Comércio, a Presidência afirmou que as condições dessas importações ameaçavam prejudicar a segurança nacional e admitiu instrumentos adicionais, inclusive medidas comerciais, caso os acordos não fossem suficientes. Trata-se, aqui, da posição oficial do governo americano expressa na proclamação; a avaliação dos custos e da eficácia dessas medidas permanece objeto de debate econômico.
Em 20 de julho, a Casa Branca avançou sobre outro elo das cadeias de defesa. A Executive Order 14415 estabeleceu como política dos Estados Unidos que equipamentos militares, componentes e materiais críticos necessários à sua fabricação, manutenção e reparo sejam obtidos domesticamente ou de nações aliadas, com o objetivo declarado de reduzir riscos de concentração e dependência.
Dez dias depois, Trump recorreu especificamente à Section 101 da Defense Production Act de 1950 em relação a minerais e materiais críticos recuperáveis, como massa negra de baterias, ímãs permanentes de terras raras em fim de vida e outros resíduos e sucatas contendo materiais estratégicos. A determinação concluiu que esses materiais eram escassos e essenciais à defesa nacional e autorizou o Secretário de Comércio a empregar as competências de prioridades e alocações previstas nessa seção, inclusive por meio de regulamentos e procedimentos.
Essa precisão jurídica é importante. A Section 101 não deve ser descrita genericamente como um mecanismo de financiamento da mineração. A Defense Production Act reúne instrumentos distintos; nesse ato específico de julho, a autoridade invocada foi a de prioridades e alocações para assegurar oferta adequada de materiais recuperáveis.
Em 7 de agosto, a Casa Branca anunciou mais de US$ 2 bilhões em projetos de mineração e cadeias associadas, além de investimentos em formação de mão de obra. A Reuters, ao contabilizar um conjunto mais amplo de projetos e instrumentos anunciados no mesmo evento, reportou aproximadamente US$ 3 bilhões. A diferença decorre do escopo contabilizado por cada fonte, e não altera o sentido da política: ampliar produção, processamento e capacidade industrial doméstica.
Pode-se discutir custos, velocidade, impactos ambientais e eficiência econômica de cada instrumento.
Mas a lógica estratégica adotada pela administração é clara: os Estados Unidos estão tentando recuperar capacidade industrial em setores que consideram essenciais à própria segurança.
Da eficiência à resiliência
Essa talvez seja uma das transformações econômicas mais importantes do nosso tempo.
Durante a fase mais intensa da globalização, a pergunta predominante era: “Onde podemos produzir mais barato?”
Agora, governos acrescentam outra: “De quem dependeremos quando algo der errado?”
São perguntas diferentes. E produzem políticas diferentes.
O menor preço continua importante. Mas deixa de ser o único critério quando o produto em questão pode determinar a capacidade de fabricar um caça, um míssil, um radar, um chip, uma bateria ou parte da infraestrutura energética.
Nesse contexto, redundância deixa de parecer puro desperdício. Estoque estratégico deixa de parecer antiquado. Produção doméstica deixa de ser necessariamente sinônimo de ineficiência. E aliados confiáveis deixam de ser apenas parceiros diplomáticos: passam a integrar a arquitetura econômica da segurança nacional.
A China construiu uma vantagem
Seria um erro atribuir a posição chinesa nesse setor apenas à existência de reservas minerais.
A posição alcançada pela China também resulta de décadas de investimento, política industrial, escala produtiva, infraestrutura e capacidade de processamento.
Isso precisa ser reconhecido para que o problema seja compreendido corretamente.
Os Estados Unidos não enfrentam apenas uma China que possui minerais. Enfrentam uma China que desenvolveu capacidade para processar materiais e transformá-los em componentes utilizados pela economia mundial.
Essa concentração também adquiriu dimensão geopolítica. Em 2026, a China continuou utilizando controles de exportação sobre empresas e materiais de uso dual, inclusive em cadeias relacionadas a terras raras. Reportagens da Reuters registraram medidas contra empresas americanas e japonesas e mostraram como a concentração da oferta passou a influenciar diretamente a relação econômica e estratégica entre Pequim e Washington.
Isso não significa que toda restrição chinesa deva ser descrita automaticamente como uma “arma econômica”. O fato verificável é mais preciso: em mercados altamente concentrados, decisões regulatórias do principal fornecedor podem produzir efeitos internacionais desproporcionais.
É exatamente por isso que a resposta americana não pode se resumir à imposição de barreiras comerciais.
Para competir, será necessário produzir, formar engenheiros e técnicos, tornar economicamente viáveis novos projetos sem abandonar padrões ambientais e de segurança, investir em pesquisa, reciclar, desenvolver materiais substitutos e reconstruir capacidades industriais que perderam espaço ao longo de décadas.
Nesse aspecto, a questão dos minerais se conecta diretamente ao debate sobre reindustrialização.
America First não significa America Alone
Existe também uma distinção importante.
Autonomia estratégica não significa necessariamente autarquia.
Nenhuma grande economia moderna consegue produzir internamente, em escala competitiva, absolutamente tudo aquilo de que necessita.
A própria estratégia americana combina produção doméstica com diversificação internacional. A ordem de julho sobre cadeias de defesa, por exemplo, menciona explicitamente o fornecimento doméstico ou proveniente de nações aliadas.
Austrália, Canadá, Japão, Coreia do Sul, países europeus e outros parceiros podem participar de cadeias mais resilientes. Os Estados Unidos possuem, nesse sentido, um ativo que uma simples comparação de reservas minerais não captura: uma extensa rede internacional de aliados e parceiros.
Segurança econômica, portanto, não precisa significar produzir tudo dentro das próprias fronteiras. Pode significar construir uma rede suficientemente diversificada para que nenhuma dependência individual tenha capacidade de paralisar o país.
É uma diferença fundamental.
A segurança nacional voltou à fábrica
Durante boa parte das últimas décadas, segurança nacional era imaginada principalmente em termos militares: porta-aviões, mísseis, aeronaves, bases e soldados.
Essa definição tornou-se insuficiente.
Uma potência pode possuir sistemas militares extraordinariamente sofisticados e, ainda assim, descobrir que componentes necessários à sua produção ou manutenção dependem de cadeias externas vulneráveis.
A força militar começa muito antes do campo de batalha. Começa na mina, passa pela refinaria, continua na fábrica e no laboratório e somente depois aparece no armamento.
É essa relação entre capacidade produtiva e poder nacional que voltou ao centro do debate americano.
E o Brasil?
Aqui a discussão se torna especialmente interessante para nós.
O Brasil aparece na geografia internacional dos recursos minerais e possui condições para participar de cadeias que estão sendo reorganizadas. A Agência Nacional de Mineração destaca a diversidade geológica brasileira e seu potencial de ampliar a participação do país nas cadeias globais associadas à transição energética, à digitalização e à alta tecnologia. O Serviço Geológico do Brasil publicou, em 2026, um panorama específico do potencial nacional de minerais críticos e estratégicos.
Mas precisamos evitar uma velha armadilha brasileira.
Ter recursos naturais não significa possuir poder industrial. Possuir minério não é o mesmo que dominar seu processamento. Exportar matéria-prima não é o mesmo que fabricar componentes. E fabricar componentes não é o mesmo que possuir tecnologia, patentes, empresas globais e capacidade de inovação.
Pesquisa publicada em 2026 por especialistas do U.S. Geological Survey sobre dependência mineral indireta mostra justamente como cadeias modernas podem ocultar a verdadeira procedência das matérias-primas: um país pode registrar determinada origem comercial imediata enquanto o material foi originalmente extraído em outro lugar e apenas processado ou reexportado por intermediários.
Para o Brasil, a pergunta deveria ser: queremos permanecer predominantemente no início dessas cadeias ou avançar para os elos nos quais se concentram tecnologia, conhecimento e maior valor agregado?
O erro brasileiro seria apenas assistir
Estados Unidos e China tratam mineração, semicondutores, inteligência artificial, energia, defesa e indústria como partes de uma arquitetura estratégica cada vez mais interligada.
O Brasil frequentemente discute esses assuntos separadamente: mineração em uma gaveta, indústria em outra, universidades em outra, defesa em outra, comércio exterior em outra e tecnologia em outra.
O século XXI provavelmente favorecerá países capazes de conectá-las.
Os Estados Unidos perceberam que possuir empresas extraordinárias de tecnologia não elimina a necessidade de possuir — ou garantir por meio de parceiros confiáveis — a base material capaz de sustentá-las.
A China construiu capacidades importantes nesse campo ao longo de décadas.
Ao Brasil cabe definir como transformar potencial geológico em desenvolvimento tecnológico e industrial de longo prazo.
A nova geopolítica começa no subsolo
Durante décadas, imaginamos que o futuro seria cada vez mais digital, virtual e imaterial.
Em parte, será.
Mas existe uma ironia nisso.
A inteligência artificial depende de data centers; data centers dependem de semicondutores; semicondutores dependem de equipamentos sofisticados; equipamentos dependem de materiais; baterias, sistemas militares e satélites dependem de minerais.
A economia aparentemente imaterial do século XXI repousa sobre uma realidade brutalmente física: pedra, metal, energia e fábrica.
A disputa entre Estados Unidos e China demonstra que tecnologia e indústria nunca estiveram realmente separadas da geografia.
A estratégia americana de reduzir dependências críticas pode gerar custos e enfrenta obstáculos regulatórios, ambientais, econômicos e tecnológicos. Tampouco elimina a necessidade de comércio internacional.
Mas parte de uma constatação estratégica explicitada pelo próprio governo americano: depender excessivamente de fontes externas para materiais indispensáveis à defesa, à infraestrutura e às indústrias de alta tecnologia é tratado por Washington como risco à segurança nacional.
A guerra dos semicondutores mostrou ao mundo a disputa pelo cérebro da nova economia. A guerra dos minerais revela a disputa pela matéria que torna esse cérebro possível.
E, no século XXI, poder não pertencerá simplesmente a quem possuir recursos. Pertencerá também a quem conseguir fazer algo muito mais difícil: extraí-los, processá-los, transformá-los em tecnologia e construir cadeias suficientemente resilientes para continuar produzindo quando o mundo deixar de funcionar como previsto.
FONTES E REFERÊNCIAS
· INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Global Critical Minerals Outlook 2026. Paris: IEA, 2026. Referência independente sobre concentração de refino, diversificação das cadeias e perspectivas de demanda.
· INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Rare Earth Elements — Executive Summary. Dados de 2024 sobre a participação da China na mineração, no refino/separação e na fabricação de ímãs permanentes de terras raras.
· THE WHITE HOUSE. Adjusting Imports of Processed Critical Minerals and Their Derivative Products into the United States. Proclamação presidencial, 14 jan. 2026. Documento baseado em investigação do Department of Commerce sob a Section 232 da Trade Expansion Act de 1962.
· THE WHITE HOUSE. Securing America’s Defense Supply Chains and Ensuring Domestic Acquisition of Critical Materials. Executive Order 14415, 20 jul. 2026.
· THE WHITE HOUSE. Presidential Determination Pursuant to Section 101 of the Defense Production Act of 1950, as Amended, on Recoverable Critical Minerals and Materials. Determinação presidencial, 30 jul. 2026.
· THE WHITE HOUSE. President Donald J. Trump Announces Billions in New Deals and Investments to Power American Mining. Fact Sheet, 7 ago. 2026.
· U.S. GEOLOGICAL SURVEY (USGS). Mineral Commodity Summaries 2026. Referência técnica sobre produção, reservas, comércio e dependência mineral dos Estados Unidos.
· BRAINARD, Jamie L.; GULLEY, Andrew L.; NASSAR, Nedal T. Indirect mineral import reliance and provenance. Mineral Economics, 2026. DOI: 10.1007/s13563-026-00629-8.
· REUTERS. China imposes export controls on 20 Japanese entities to curb 'remilitarisation'. 24 fev. 2026.
· REUTERS. China targets US rare earth and other firms with export controls. 22 jun. 2026.
· REUTERS. Trump administration to invest $3 billion in minerals projects to boost US defense supply chains. 7 ago. 2026.
· SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL (SGB). Panorama do potencial de minerais críticos e estratégicos do Brasil: edição 2026. Relatório técnico, 2026.
· AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO (ANM). Minerais Críticos e Estratégicos. Conteúdo institucional atualizado em 2026.

